sábado, setembro 17, 2016

Mel da lichiguana.
                No passeio da véspera havíamos passado junto a uma caixa de abelhas selvagens, suspensa, cerca de pé e meio da terra, a um ramo de arbusto, era quase oval, do tamanho de uma cabeça e de uma consistência semelhante à das colméias européias. Matias e José Mariano tinham ido destruir essa colméia para tirar o mel.
                Comemos os três desse mel. Fui segundo Jose Mariano, o que mais comeu, e avalio não ter tomado quantidade a duas colheradas. Senti logo uma dor de estômago, mais incômoda que forte e deitei-me em baixo da carruagem, com a cabeça apoiada sobre uma pasta do herbário, caindo em uma espécie de sonolência, durante a qual senti-me transportado aos espaços celestiais, ouvindo uma voz que gritava: “Ele não se perderá, há um anjo que o protege”.  Nesse instante minha irmã veio buscar-me pela mão. Achava-se vestida de branco, com uma faixa ao redor do corpo e sua fisionomia aparência de inexpressável calma e serenidade. Tomou-me pela mão, sem me olhar e sem proferir uma só palavra, e conduziu-me perante o tribunal de Deus. Lembrei-me das últimas palavras da parábola do Bom Pastor e acordei.
                Levantei-me, mas senti tal fraqueza que não pude dar mais de cinquenta  passos; voltei para debaixo da carruagem e senti-me quase instantaneamente com o rosto banhado em lágrimas, atribuíveis à emoção causada pelo sonho acima exposto. Envergonhei-me de tal fraqueza e pus-me a sorrir, mas apesar de tudo, esse sorriso prolongou-se e tornou-se convulsivo e cobri a cabeça para que meus camaradas não notassem. Contudo, tive ainda forças para dar algumas ordens ao Firmiano; entrementes José Mariano chegou. Disse – me com ar gaiato, mas um pouco perturbado que se achava embriagado e que há uma meia hora corria pela mata. Assentou –se então sob a carruagem apoiando-se sobre uma roda, convidando-me a tomar lugar. Com dificuldade até lá ; senti-me extremamente fraco e apoiei a cabeça sobre os ombros de José Mariano. Foi então que começou a mais cruel agonia. Uma espessa nuvem escureceu minhas vistas e não me foi possível distinguir senão o do céu de mistura com algumas nuvens e as sombras dos meus empregados. Cai no ultimo grau  de fraqueza e sem sofrer muito experimentei contudo experimentei contudo todas as angustias da morte. Todavia conservei perfeitamente a lembrança de tudo que vi e entendi; uma narrativa feita por Laruotte está conforme o que recordo.
                Há cerca de dois anos, disse eu a José Mariano, que nós fechamos os olhos de nossos amigo, ide hoje assistir ao meu ultimo suspiro. – Estou bem mal também, respondeu-me ele, vamos morrer juntos nesse deserto. Pedi vinagre concentrado e aspirei-o varias vezes com força, sentindo-me um pouco reanimado por alguns segundos, retornando logo ao abatimento. Laruotte achava-se ausente quando comecei a sentir-me mal, mas mandei chamá-lo e ele cuidou-me com desvelo. Tinha ao redor de min esse empregado, Firmiano o índio peão, Matias e José Firmiano; e estes dois também muito molestados.
                Meus amigos, disse-lhes em português, sinto que vou expirar neste deserto, longe da minha família e de meus pais; as sombras da morte rodeiam-me; vou juntar-me a esses anjos que me incitam a segui-los. Não sou mau, nunca fiz mal a ninguém, minhas faltas são perante Deus, que me perdoará, espero-o, ou talvez me punirá. Uma luta cruel  mas de curta duração passou-se pela minha alma. Minha mãe e meu sobrinho não precisam de min, mas esses pobre Firmino que atirei nestes desertos, que será dele quando eu não mais existir? Matias recomenda-o ao Conde de Figueira; que ele nunca seja escravo de ninguém. Quis afastá-lo, mas em seguida chamei-o para junto de min. e vi algumas lágrimas correr de seus olhos. “Matias, perdoo-te o mal que me fizeste Lauroette, sabeis que minhas coleções pertencem ao Museu de Historia Natural; meus manuscritos devem ser remetidos a minha família.
                O sonho que havia tido, logo de inicio dessa crise, apresentava-se sem cessar em meu cérebro e senti-me possuído de uma força invisível para contá-lo.
                As palavras que venho relatando não foram ditas seguidamente, mas com longas pausas, de modo entrecortado. Quis falar Frances mas a memória somente fornecia-me vocábulos portugueses, e mesmo ao Laruotte falei quase só em português.
                Ao começar a cair nesse estado esquisito experimentei beber vinagre e água, mas não melhorando pedi água morna para ver se consegui expelir o mel que tanto mal causara. Notei que , se engolir, a nuvem que me toldava a vista desaparecia por instantes. Pus-me a beber grandes goles, sem interrupção. Segundo me disse Lauoroette devo ter bebido dezesseis pintas.
Pedi-lhe sem cessar um vomitivo; ele procurou em todas as malas, mas atordoado pelo que se passava não conseguia encontrar. Estando eu debaixo da carruagem não podia vê-lo, mas parecia estar a enxergá-lo e censurei sua lentidão, sendo essa a única falta que cometid durante tal agonia.    
                Nesse ínterim Jose Mariano levantou-se sem que eu desse por isso, mas logo meus ouvidos foram atingidos por seus gritos. No momento achava-me melhor; a nuvem que me escurecia os olhos dissipou-se um pouco e nenhum dos movimentos desse criado me escapou. Rasgava as vestes com furor ficando inteiramente nu; tomou uma espingarda e deu um tiro; Matias arrebatou-lhe a arma e ele pos-se a correr pelo campo, chamando em seu socorro, com todas as forças, Nossa Senhora Aparecida, pedindo suas armas, gritando que todo o campo estava incendiando, e que as malas iam ficar queimadas e que era preciso fechá-las. O peão índio tentou segura-lo mas vendo que não seria bem sucedido o deixou.
                Até aqui Matias não tinha cessado de me dispensar cuidados, mas ele, também começou a sentir muito mal. Entretanto como conseguia vomitar logo e como era de compleição robusta retomou prontamente suas forças. Laruoette disse - me depois que sua figura estivera horrenda e de extrema palidez. Irei disse ele repentinamente, dar aviso à guarda e já era tarde. Montou a cavalo e pôs-se a galopar no campo, mas logo lourette viu-o cair. Levantar-se e pôr-se de novo a galopar, mas logo tornou a cair e algumas horas depois foi encontrado profundamente adormecido no local onde caíra por último.
                Vi-me, ainda semimorto, com um homen furioso e duas crianças para cuidar de min, pois Firmiano  e Laruoette não podem ser considerados como homens. José Mariano deu-me as maiores preocupações. No mesmo instante pensei na possibilidade de sermos atacados pelos espanhóis e essa lembrança transtornou-me as idéias.
                Quando estive pior pareceu-me ver o cão do guia que me acompanhou até ontem. Perguntando a Larouette e firmiano se isso tinha sido uma visão responderam-me que não, por isso veio-me a esperança do retorno de Joaquim e do novo guia; isso reanimou-me e não cessei de perguntar-lhe se não avistaram alguém chegando.
                Entrementes José Mariano veio assentar-se junto de min. Estava mais calmo e tinha envolvido qualquer coisa ao redor da cintura. “Patrão, disse-me ele, daí-me água, estou numa fogueira”.
....  Vêde, meu amigo estou doente, mas o regato fica próximo daqui “.
“....Dai-me o braço, meu patrão, há tanto tempo estou convosco e sempre fui um empregado fiel”.
Tomei-lhe a mão e disse algumas palavras tranqüilizadoras.
                Enquanto isso a água quente, que eu tomara em prodigiosa quantidade, terminou por fazer efeito. Vomitei, com muita água, os alimentos ingeridos pela manhã. Senti-me muito melhor, distinguindo claramente a carruagem, as pastagens e as árvores; a nuvem não encobria mais os objetos, algumas vezes ela reaparecia, mas sumia logo. Vi que estava quase nu e tive vergonha. Olhei as mãos e vi com satisfação que elas mexiam. O estado em que vi José Mariano tranquilizou-me  apesar de ficar cruelmente atormentado de ver seu sofrimento e acreditei não poder mais vê-lo completamente bom de jizo.
                Um segundo vomito trouxe-me mais alivio que o primeiro. Distingui os objetos mais claramente ainda e pude, com agrado, falar Frances e português, minhas idéias tornaram-se mais concisas e indiquei claramente a Lauruotte  onde se ahcava o vomitivo. Tomeio por 3 vezes e acabei por lançar torrente de água, todos os alimentos que ingerira. Até o momento em que deite fora a terceira porção de vomitivo experimentava uma espécie de prazer em tomar água quente, mas daí por diante ela começou a repugnar-me e deixei de bebê-la.
                Durante alguns instantes senti dormência nos dedos, mas isso teve curta duração. A nuvem desapareceu completamente, minhas idéias tornaram-se claras e pouco a pouco, senti-me curado. Mandei faze chá e tomei três xícaras. Levantei-me passeei, corri e fui o primeiro a rir de tudo o que se passava.
Episódio ocorrido as margens do arroio Guarapuitã.
Trecho do livro Viagem ao Rio Grande do Sul.

Auguste de Saint Hilaire.

quarta-feira, junho 08, 2016

domingo, abril 19, 2015

Chuva de feijão


A Republica, da Fortaleza, publicou a seguinte notícia:
“O Sr. Bemvindo Alves Pereira. Conductor do trem de Baturité, teve a gentileza de vir ao nosso escriptorio trazer-nos uma amostra das sementes de que se cobriram os campos da fazenda Floresta, a 5 kilometros da estação do junco, por ocasião de uma chuva diluviana, cahida ali há três dias.
            Essas sementes, que foram fartamente disseminadas por uma extensa área, têm o mesmo sabor, forma e cor do nosso feijão mulatinho, se bem que sejam mais consistente que elle.
            No anno passado foi nos remettida uma amostra de idênticas sementes, encontradas, não nos recordamos bem onde, após uma chuva torrencial.
            Sobre esse curioso phenomeno fizemos, nessa ocasião, algumas considerações e publicamos uma carta que nos enviaram:- desejávamos, porém ouvir a respeito a opinião competente de um entendido.
            Esse maná, da nova espécie, cahido do ceo, por descuido, fica em nosso escriptorio a disposição de quem quer examinar.
Jaguarão (RS) Jornal A ordem – terça feira, 11 de abril de 1899.


quinta-feira, junho 19, 2014

O extraordinário El Niño 1877 – 1878.


O fenômeno El Niño é atualmente bem divulgado, um sistema mundial de meteorologia  mantém atualizações de informações e as possibilidades e intensidade de ocorrência. Esta organização começou com a formação de redes meteorológicas, com atividades regulares, e com o advento dos sistemas de satélites. Todas essas tecnologias surgiram a partir do século XX, a grande pergunta é sobre o passado quando não havia uma forma organizada de observação e analise do processo.
            Atualmente a climatologia histórica tenta responder, em parte, estas questões em base da analise da documentação do passado, na maior parte das áreas povoadas ao redor do mundo não possuía, antes do século XX, estações meteorológicas, em caso de ocorrências de impactos extremos, em alguns casos ficaram registros de administradores, serviços militares etc. comentando o que aconteceu, os prejuízos ocorridos o tempo de duração.
            Neste artigo vamos fazer um breve relato de um dos eventos de El Niño, que segundo os historiadores, foi um dos mais fortes, o fenômeno que começou em 1877 e durou até 1878. A escala de ocorrência deste evento parece ter causado uma convulsão no clima planetário, com forte alteração das condições médias do clima de varias localidades.
            Na Índia e no norte da China, segundo relatos da época, em 1876 as condições começaram a se alterar, as chuvas de monções, tão importante para a agricultura, rarearam e no período deste El Niño, a situação piorou uma intensa seca trouxe falta de alimentos resultando na morte entre 15 e 25 milhões de pessoas. Na África, na passagem de 1877 – 1878, uma seca muito forte dizimou a população do Sudão e do Egito.
            Atualmente os historiadores estão associando o terrível surto de febre amarela que assolou os Estados Unidos em 1878,  devido as modificações do clima, na época, o aumento da umidade criou condições para a proliferação do mosquito Aedes egypti, transmissor da febre amarela. A cidade de Menphis, na época com 50.000 habitantes, ficou completamente deserta, devido ao alto índice de morte provocado pela febre amarela.
Na América do Sul, grandes enchentes do rio Paraná trouxeram enormes prejuízos para as comunidades, no Perú, secas e também grandes enchentes aconteceram em vários locais. Na cidade de Lima, a população, em dezembro de 1877, ficou estarrecida perante o assustador espetáculo que presenciaram, viram a partir das 16 horas o céu cobrir-se de escuras nuvens, seguido de uma tempestade elétrica com muitos trovões e uma tempestade desabou na cidade. As pessoas daquela geração, que não tiveram chance de viajar, nunca tinham visto semelhante coisa. Desde a fundação da cidade, há 340 anos, esta foi a quinta tormenta que se abateu sobre a cidade.
            No Brasil o episódio mais severo que ocorreu foi no ano de 1877, uma terrível seca dizimou a população do nordeste brasileiro. Os camponeses sobreviventes refugiaram-se nas áreas urbanas, onde eram colocados em campos de concentração e morriam  de inanição.

            Estes são alguns dos episódios que a documentação da época relata sobre os acontecimentos produzidos pelo forte impacto deste fenômeno.

terça-feira, fevereiro 21, 2012

Civilizações antigas e impactos climáticos na América do Sul.

O modelo da escala do ciclo dos fenômenos climáticos, esta fundamentado no sistema de redes meteorológicas construídas a partir do século XX. Portanto para a análise de um fenômeno complexo, como o clima, são poucas as informações que possuímos construídas a partir dos dados das estações meteorológicas produzidos desde aquela época até o presente. Observações registradas pelas sociedades são, portanto raras e ainda muito incompletas.
Os dados mais antigos foram construídos pela pesquisa na área da climatologia histórica, proveniente da documentação deixada pela colonização europeia. Em documentos antigos às vezes estão anotados, por exemplo, ocorrência de grandes secas, inundações, ondas de frios etc. Estas informações servem de suporte para registrar a possibilidade da ocorrência de fenômenos meteorológicos extremos nos séculos passados. Ainda não existem séries temporais de larga abrangência espacial produzidas a partir destes dados. A pergunta que fica é: que fenômenos meteorológicos aconteceram antes da chegada dos europeus e onde procurar informações sobre isto?
Atualmente sabemos que inúmeras culturas sul americanas desapareceram antes da chegada dos europeus e outras foram destruídas nos primeiros tempos da colonização. Os dados antropológicos e arqueológicos demonstram que muitos destes povos atingiram um desenvolvido estágio social e estavam fortemente baseados na agricultura, o que era um fator importante para estarem diretamente ligados aos fenômenos meteorológicos. Como agricultores dependiam diretamente do clima tornando-os observadores e registrando o que viam sobre o tempo.
Um dos trabalhos, que revelou dados extraordinários sobre este tema, está ligado à antiga cultura Mochica que estava localizada no norte do Peru entre a encosta da montanha e o litoral, o local é um dos mais áridos desertos quentes do planeta.
Atualmente, no local, existem ruinas de pirâmides, algumas tinham o porte das pirâmides egípcias, denominadas pelos moradores locais de Huacas. Os Mochicas construíram também uma rede de aquedutos que levava água para suas cidades, este sistema é usado até hoje pela população local. As escavações arqueológicas revelaram uma notável sociedade com a metalurgia altamente desenvolvida, uma rica técnica cerâmica, com vasos finamente decorados com desenhos mostrando detalhadamente o cotidiano da sociedade Mochica. Os dados da pesquisa mostraram que entre 560 e 650 DC esta cultura, misteriosamente, entrou em colapso e desapareceu. O que teria acontecido?
A pesquisa do arqueólogo canadense Dr. Steve Bourget trouxe perguntas interessantes. Ao examinar uma grande quantidade de ossos humanos, encontrados no local. A prospecção estratigráfica mostrou inúmeros ossos de seres humanos estavam enterrados num ambiente úmido, na lama. Como poderia ser isso num deserto, onde jamais chove?
As surpresas continuaram o que parecia serem somente restos de prisioneiros sacrificados revelaram, ao longo da pesquisa, que jovens da elite Mochica estavam ali sepultados. A análise dos ossos mostrou que não havia um padrão que motivou a morte, não seguiam os modelos de sacrifico ritualístico. O estudo feito na artística cerâmica revelou um dado surpreendente, a ornamentação, de alguns vasos, mostra guerreiros jovens duelando sob a chuva, a interpretação arqueológica propôs que se tratava de um ritual feito sob chuvas torrenciais. Novas prospecções feitas nas Huacas revelaram níveis estratigráficos com depósitos correspondentes a um ambiente de alta energia, como uma enchente, e nas camadas superiores depósitos de ambiente seco.
O trabalho desenvolvido pelo Dr. Lonnie G. Thompson trouxe elementos para construir um quadro impressionante. Sondagem feita no gelo da montanha revelou, nos testemunhos, sequencias estratigráficas, que quando datadas indicaram que entre 560 e 600 DC o clima da região passou por uma severa transformação, tudo indica a ocorrência do fenômeno ENOS numa escala sem registro histórico. A região foi assolada por 30 anos de intensas chuvas seguidos de um período seco que durou 30 anos, isto arrasou a cultura Mochica. De acordo com o modelo atual do ENSO, períodos úmidos na montanha correspondem à seca na costa e períodos secos na montanha chuva na costa, os testemunhos de gelo mostraram exatamente isto.
Se esta teoria estiver correta um evento desta escala deve ter atingido diversas partes do globo, em especial as regiões próximas provocando, por exemplo, seca na Amazônia e intensas chuvas no sul do Brasil

terça-feira, setembro 06, 2011

Arte e ciência no Brasil.

A produção do conhecimento, sobre a rede natural, se depara com a falta de informações, o registro sistemático dos fenômenos é uma prática recente, facilitado pelo grande desenvolvimento da tecnologia.
Hoje é de conhecimento a grande alteração dos espaços naturais, com a modificação da paisagem e desaparecimento de espécies vegetais e animais como consequência disso. A produção do conhecimento científico se depara com a escala de tempo restrita, praticamente do século XX para o presente, existe grande dificuldade em obter dados mais antigos.
Por isso entendemos que as artes plásticas, práticas como o desenho, gravura e pintura, são uma importante fonte de informação, para a produção científica, no campo da história natural.
Os historiadores têm discutido a evolução da arte, sua tendência e as diferentes manifestações artísticas ao longo da história. Atualmente existe na literatura uma enorme quantidade de informações, sobre este assunto. Porém um interessante material, até o momento pouco explorado, é aquele que se compões de obras que retratam a natureza, nos seus diferentes aspectos, uma arte naturalista, que ocupa uma posição interdisciplinar entre a ciência e arte.
Olga Pombo, ao discutir a obra de Charles Darwin, comenta este tipo de arte, evidenciando que hoje é mais divulgado o que foi produzido por grandes artistas, como os estudos de Leonardo Da Vinci sobre o corpo humano, enquanto que inúmeros trabalhos, feitos por artistas desconhecidos, são raramente citados na literatura historiográfica.
Talvez uma das fontes mais importantes, para este tipo de discussão, seja o material produzido por artistas que acompanhavam expedições científicas antes da descoberta da fotografia.
Neste acervo existem trabalhos que tinham o claro propósito de representar, por exemplo, uma rocha, planta ou pássaro, as expedições, científicas geralmente tinham na equipe artistas para fazer este trabalho. Mas também obras, como representação de paisagens, podem ter informação que o artista, ao produzir, não percebeu, e que hoje podem fornecer informações científicas importantes para os pesquisadores. Emanuel Leroy Ladurie, na sua pesquisa sobre climatologia histórica, usou diversos desenhos e gravuras, de diferentes artistas do século XVII, XVIII e XIX, para o seu estudo sobre a pequena idade glacial na Europa, com o objetivo de analisar a movimentação dos glaciares.
No Brasil os primeiros registros, documentos conservados até o presente, provém de varias fontes. Entre os registros mais antigos da paisagem brasileira, do século XVII, estão as pinturas feitas pelos holandeses Frans Post e Albert Eckout, artistas trazidos para o Brasil por Mauricio de Nassau.
Outra coleção importante é a do brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira, amparado pelo governo português, deixou uma obra importante, executas no século XVII, onde aparecem ilustrações detalhadas sobre a flora por ocasião da participação em expedições pelo interior do Brasil.
João Barbosa Rodrigues, engenheiro, naturalista e botânico, pode ser considerado o pai da ilustração científica no Brasil, entre vários trabalhos, executadas no século XIX, deixou uma obra sobre as orquídeas do Brasil.
Hercules Florence, Aimé-Adrien Taunay e O alemão Johann Moritz Rugendas foram artistas que acompanharam a expedição Langsdorf, (1824 – 1829) ao longo desse período produziram uma grande obra de registros do Brasil.
Estes são alguns dos artistas importantes, existiram outros, além do que grande é a possibilidade que se encontre, na grande quantidade de documentos dos arquivos históricos, material ainda não publicado.
Ainda falta um detalhado trabalho de resgate as inúmeras informações, espalhadas em diversos trabalhos, como livros, dissertações, teses, muitas vezes as obras desses artistas aparecem como citações, ou em pequenos comentários.
Por exemplo, a obra do pintor Benedito Calixto, ainda é desconhecida como material de investigação científica, o seu trabalho, óleo, Inundação, retrata detalhadamente um aspecto que pode ser usado como apoio em trabalhos científicos. Também as aquarelas do alemão, Herman Rudolf Wenroth, produzidas no século XIX, pinturas feitas em vários lugares no Rio Grande do Sul, ainda não foram analisadas como material de apoio para a ciência.

sábado, agosto 28, 2010

Enchentes.

Enchentes.
Desejosos de contribuir com meu fraco contingente para o bem estar geral, por uma longa observação geral, por uma longa observação pessoal de perto de 30 annos relativamente a regularidade com que periodicamente se repetem as enchentes dos rios n´este Estado; observação confirmada pelas diferentes informações colhidas de moradores e naturaes antigos da campanha ao correr dos trabalhos diversos, de que aqui tenha sido encarregado já pelo Governo Federal, já por campanhas particulares, é que escrevo estas linhas.
Em scienca e nas industrias, assim como na vida geral, a observação e a experiência são os melhores mestres, as mais verificadas fontes de onde tiramos as mais proveitosas lições.
Em toda parte do mundo, onde a civilização e adiantamento fundem-se observatórios meteorológicos onde se enregistram as observações para a previsão das alternativas climatológicas; e neste Estado onde se podiam estabelecer regras para essas previsões, apesar do progresso crescente que presenciamos, nada ou quase nada há feito n ´esse sentido, e, quase pode-se dizer, não raras vezes são todos surprehendidos na ocasião das repentinas enchentes conseqüentes de grandes temporaes nos anos climatéricos.
Entretanto as enchentes dos rios n ´este Estado repetem-se regularmente de cinco em cinco annos e as grandes enchentes extraordinárias de vinte e cinco em vinte e cinco annos.
Tendo feito parte como nivellador da commisão de estudos da Estrada de Ferro de Porto Alegre á Uruguyana , estudo que o Governo Imperial em 1873 resolveu mandar, executar á vista do clamor causado pelos grandes prejuízos acarretados pela enchente de S. Miguel, em fins de setembro d´este ano, ainda em princípios de 1874 tomeis as referencias do nivel d´agua d´essa enchente nos peitoris das janellas das casas do Caminho Novo, hoje rua dos Voluntarios da Patria, em Porto Alegre.
Foi essa então considerada a máxima enchente de do Valle do Rio Jacuhy.
No correr dos estudos sobre Porto Alegre e a cidade de Cachoeira colhi diversas informações dos naturaes e moradores antigos, propietarios dos terrenos atravessados pela linha.
Em geral os naturaes não conhecem a numeração dos annos e nas suas referencias a annos anteriores os definem conforme as sucessões então havidos. Assim dizem elles:
No anno da grande seca;
No anno da praga de gafanhotos, etc.
Entre o rio dos Sinos e o arroio Cahy um pequeno estancieiro prestando-me informações do nível da maior enchente havida, disse-me:
Três anos depois da pacificação da província (1848) houve aqui uma enchente muito maior do que a ultima, e mostrou-me o lugar a que atingiu esta enchente.
Entre o rio Cahy e o Taquary, perto de um grande arroio chamado dos Paulistas, encontrei um senhor estancieiro, homem idoso, octogenário, que mui benevolentemente foi ao campo onde eu estava trabalhando prestar- me suas informações, e mostrou-me uma corticeira no meio do campo, na encosta de uma cochilha, onde ele afirmou-me que tinha, quando moço, retirado um gado da enchente no anno seguinte ao da independecia do Brazil (1823); e disse-me que essa árvore alli tinha brotado de um galho na occasião ali deixara a enchente no anno seguinte, que afirmava ser superior a ultima de então.
Essa árvore elle conservava como recordação viva do facto.
Reunindo as datas estabeleci a razão arithemetica da repeição das enchentes extraordinárias; e em 1898, quando diretor da Estrada de Ferro de Santa Maria ao Uruguay, determinei as providencias precisas para sem perigo aguardar a força das águas como: limpeza de vallas, desobstrução de estradas e sahida das obras d´arte etc. ; graças ao que não houve nesse anno, apezar de muito climatério, como todos testemunhamos, interrupção do tráfego, pois nem um só trem faltou, apezar dos enormes desmoronamentos, que então houve na serra .
Ficou pois confirmada a minha previsão baseada no período de 25 anos da ultima (1873) porque as enchentes extraordinárias tinham sido em 1823, 1848 e ... 1873.
Pessoalmente tenho testemunhado as enchentes periódicas de 1873, 1878, 1883, 1888, 1893 ( anno em que as forças que se digladiavam na campanha ficaram paradas por causa das enchentes que assoberbavam as várzeas) e 1898.
É conclusão certa que em 1903 os rios transbordarão e que presencearemos uma outra enchente dos rios o território rio – grandense.
Aviso aos senhores estancieiros para nas ocasiões de grandes chuvas retirarem em tempo seus gados das várzeas alagadiças, as companhias de navegação que tem grandes depósitos de lenha nas barrancas do rio etc.
Outros annos tem sido de seccas, como nos dos últimos, ora de enchentes irregulares, como a de 1899.
Também tem succedido outras irregularidades: a enchente de 1873 foi a maior no vale do Ibicuhy do que do Jacuhy
Lançada a idéia, que os poderes constituídos aproveitarão conforme julgarem na sua sabedoria e patriotismo, estabelecendo as estações meteorológicas necessárias, me parecendo que Santa Maria é um ponto importante por sua posição, situada nas pontas da serra e próxima ao coxilhão do Pau Fincado, divisa d´agua dos dous valles principaes, Jacuhy e ybicuhy, coxilhão que indica a directriz das bombas d´agua que defterminam as enchentes grandes, como ficou demostrado em um brilhante estudo que a respeito fez o ilustrado e distincto ex-engenheiro-chefe da E.F. Porto Alegre a Uruguyana em 1893, Dr. Jose Aryosa Galvão.
Também não é só em setembro que pode dar as grandes enchentes dos rios. A maior parte das vezes é nessa época (nos fins de setembro) e por é chamada enchente de S. Miguel; como na Republica Argentina se dá em fins de agosto e por isso se chama de Santa Rosa de Lima. A maior foi a de 1898 foi em junho.
Sendo as chuvas resultantes do encontro das correntes de ar quente com outras frescas – o que determina a condensação rápida, repentina, dos vapores d´agua da athmosfera, importa que as estações meteorológicas possuam meios de collecionar observações sobre força e intensidade dos ventos, temperatura do ar, pressão barométrica, quantidade de vapor d´agua, enfim todos os detalhes completos para o estabelecimento prévio das alternativas, e previsão do tempo.
É esta uma notícia ou uma observação de real utilidade para todos, e por isso é que lhe peço dar publicidade no seu muito lido e apreciado jornal.

Santa Maria, 24 de abril de 1902.
Jose Benedicto Ottoni.
Fonte: Jornal - O Combatente.